Você é uma boa hóspede?

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Imagem: Pexels / Shutterstock

Em todo tempo e lugar estamos sempre pensando que o cliente é rei. Também pensamos que quando viajamos e nos hospedamos numa pousada ou hotel ou mesmo na casa de alguém seja amigo próximo ou distante ou, quem sabe, amigo de um amigo, ou pode ser ainda alguém que aluga parte de sua casa, sempre podemos nos comportar de maneira relaxada e descontraída. Afinal, não é esse o nosso propósito quando viajamos por lazer? Temos em mente nosso merecido descanso e que, diante do pagamento da estadia, tudo podemos.

Ledo engano, é o que eu lhe digo.

Não é bem assim que funcionam as relações de hospitalidade.

Por mais que estejamos alugando temporariamente um espaço e que, por isso mesmo, esse passa a ser um lugar nosso, no qual nós fazemos o que bem quisermos, as coisas não são assim.

As regras do hóspede

Existem regras que, mesmo não escritas, estão implícitas nas relações entre pessoas. É sinal de boa educação não usurpar da hospitalidade alheia. Quanto mais folgados os hóspedes, menos desejados eles serão.

Não estou aqui dizendo para você lavar o banheiro e esfregar os azulejos do hotel, nem fazer sequer a cama, já que você contratou um serviço de quarto quando se hospedou. O que estou dizendo é que existem atitudes que não são próprias de bons hóspedes.

Por exemplo: não é de bom tom deixar roupas espalhadas pelo chão, restos de comidas de qualquer espécie abertas, em especial as que alastram cheiros pelo ambiente, toalhas e/ou lençóis manchados (seja de tinta, sangue ou qualquer outro fluido corporal), nem o ar condicionado ligado quando você está fora. Essas atitudes, além de demonstrar que não se tem boa educação, sugerem que lhe falta empatia, porque será uma pessoa, como você, igualmente um ser humano de carne e osso quem vai recolher a sua bagunça, que vai limpar os seus dejetos.

Não é porque você pagou que pode se esquecer disso.

Eu acredito e professo que uma boa conduta sempre começa com dois pequenos pontos: alteridade (respeitar o outro em suas diferenças) e empatia (capacidade de se colocar no lugar do outro).

Num país de raízes escravagistas, segregacionistas e oportunistas como o nosso, que em dias como os atuais, está mais que demonstrado o execrável e condenável modus operandi dos políticos que vendem seus votos, num incessante toma lá – dá cá, precisamos começar a repensar nossas atitudes mais corriqueiras. Tratar as pessoas com respeito, dignidade e defender até o fim a igualdade de direitos e condições é primordial para que as mudanças possam acontecer.

Como meus temas aqui são a gastronomia e a hospitalidade, meu exemplo vem daí, da minha atitude como hóspede.

Chega dessa sensação de que porque somos clientes, hóspedes ou convidados devemos ser reificados, isto é, vistos como reis. Isso é uma desculpa para nossas atitudes arbitrárias, o que nos torna gente folgada e reforça valores sem noção do outro.

Quando vamos à casa de alguém para visitar ou para passar uns dias, seja quem for que nos receba merece a nossa cordialidade, nossa deferência. Não há regras escritas sobre isso, é algo pré-existente.

Não faça de conta que nem percebeu, é feio! 

Cumprir o que foi combinado previamente como datas de chegada e previsão de partida, ser pontual ou avisar que está atrasado, ser cortês, presentar com um mimo ou algo para a casa, oferecer flores à dona da casa, por exemplo, ou ainda se oferecer para lavar a louça ou retirar os pratos da mesa, são bons modos. Isso sem nem começar uma vasta lista de atitudes que pais de crianças pequenas deveriam conhecer, mas que fazem questão de justificar com um mero “ah! é coisa de criança”. Uma dica: se você tem filhos e/ou netos pequenos, dar-lhes limites, especialmente, na casa alheia é sinônimo de lhes dar boa educação. Isso não é frescura, nem castração. Isso fará deles pessoas bem-vindas em todos os lugares.

Nas regras de hospitalidade, o hóspede deve respeito ao seu anfitrião, ele não usurpa do que lhe é oferecido, nem se comporta como se estivesse em sua própria casa. Sentir-se acolhido é uma das melhores sensações que podemos ter, mas isso implica que devemos merecer o acolhimento comportando-nos adequadamente.

Por mais que eu goste da frase que diz que regras existem para serem quebradas, tenho plena convicção de que quando nos conscientizamos do nosso papel e respeitamos o próximo não teremos tanto prazer assim em jogar fora alguns valores tão essenciais para o bom convívio.

Tomar vinho branco com carne vermelha pode ser uma quebra de regra aceitável, mas há outras que, definitivamente, não são.

Pense.

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Clau Gavioli
Mestranda em Hospitalidade na Anhembi Morumbi, é chef de cozinha, jornalista e blogueira do Blog da Gavioli. Criou o projeto Lá em casa pra jantar no qual recebe pessoas em sua casa para degustar menus especialmente criados e harmonizados. Estudou comunicação social, tem MBA em Marketing e Infraestrutura e especialização em Diplomacia Econômica.

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