Inclusão Escolar

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Aluno na escola
Imagem: picjumbo_com / shutterstock

Não há, neste Brasil de tantas falsidades, meias verdades, mentiras inteiras, nada mais inverossímil do que a tal Inclusão Escolar!

Inclusão de alunos especiais em classes de alunos comuns é a maior mentira vendida à sociedade pelo governo.

Vejam bem; meu neto Ian nasceu com Síndrome de Down. Não apresenta nenhum problema em órgãos internos, nem um só problema biológico. É forte como um tourinho de raça – esperto, feliz, bem humorado; um “sarrista”…

Toma banho, veste-se, penteia o cabelo, tudo sozinho, como qualquer criança normal. Frequentou a escola desde que tinha 4 meses. A primeira escola foi o CEESD em Campinas. Ótima instituição, que cumpre bem seu papel. Um centro especial para Síndrome de Down.

Ian, sentou-se no tempo certo, engatinhou, andou no tempo adequado. Sua primeira dificuldade começou com a fala. Custou a falar, apesar de entender tudo ou quase tudo. Mudando pra São Paulo, longe do CEESD colocamos aos cuidados de uma fonoaudióloga. As coisas foram melhorando. Fala quase tudo, algumas coisas sem muita clareza, mas faz-se entender.

A gente já sabia que não ia ser fácil.

Ele interage bem e é muito carinhoso e alegre. Entrou no maternal ainda aqui em Campinas e continuou em São Paulo. Fez maternal, Pré I e Pré II em escolas particulares, mesmo porque o Estado não mais oferece estas opções. Passou para o 1º ano, depois para o 2º, ainda em Escolas particulares, sem saber nada – isto por causa da promoção automática – outra farsa incompreensível para um educador.

Os problemas aumentaram, pois ficava num canto da sala sem aprender nada. Sofria bullying, é claro, a escola aceitava os “especiais“, mas nada de professores especializados para tal tarefa.

O Estado através da Secretaria da Educação faz ouvidos de mercador. E tudo fica numa boa, não para o aluno e sua família, logicamente. Daí, Ian passou para o 3º ano, e em setembro deste ano, voltou pra Campinas, pois aqui as coisas deveriam ser mais fáceis, já que contam comigo – a avó. Antes disso, frequentou uma escola municipal em São Paulo lá pelos lados do Paraíso. Tudo igual. Mas aprendeu a pintar direitinho, sem sair da risca e sem deixar um lugarzinho vazio, utilizando muito bem a variedade de cores.

Aprendeu escrever seu nome.

Quando resolvemos que iriam voltar, saí em busca de escolas. Procurei alhos e bugalhos, todo mundo se prontificou, mas ninguém ajudou. Sozinha, bati de porta em porta de escolas. As particulares foram “honestas“, entre aspas, porque de qualquer forma, não cumprem uma lei que existe pra não ser cumprida mesmo; e disseram que não tinham professores com formação para lidar com crianças especiais, mas poderiam recebê-lo.

Não me interessou, é claro. Saí atrás das estaduais e municipais. A maioria não tinha vaga e quando tinha já avisava que não tinha professor especial e disponível para isto. Cansada fui até a Delegacia de Ensino. Em todos os lugares, sempre fui bem recebida, mas solução: nenhuma.

Bem, na Delegacia de Ensino, a pessoa que me recebeu, deu-me algum encaminhamento: procurar a Escola Carlos Gomes, que lá havia a tal sala de Recursos para crianças especiais. Ligou para a escola e lá fui eu na minha peregrinação decepcionante. A diretora deu-lhe a vaga, mas para ele usar a sala de Recursos e ter uma atenção especial precisava de um relatório médico (pediatra, psiquiatra ou psicólogo) a Secretaria da Educação exigia.

Mais uma piada burocrática – nada mais obviamente visível à qualquer um, que uma criança com Síndrome de Down. Pois bem, se tinha de ser, que fosse! Lá fui eu atrás de um profissional da Amil (plano de saúde dele, desde que a UNIMED Paulistana faliu). Agora, pasmem: na Amil as consultas são marcadas por aplicativo. Sabe quando, neste país de faz-de-conta, ele iria ser atendido? Nunca, né?

Saí atrás de amigos até que achei um psicólogo da Amil. Foi pronto em atender-me com uma lisura ímpar. Consegui duas consultas (uma com a família e outra com o menino). Relatório pronto. Agora é esperar.

Conselho do psicólogo:

“Vovó não perca mais tempo. Seu neto é esperto, sadio, coloque-o direto na APAE. Só eles têm as ferramentas e o conhecimento para ensinar seu neto a ler e, a ter, antes de tudo – autonomia.”

Lá fui eu atrás da APAE. Liguei lá, informaram-me que eu tinha de procurar o Centro de Saúde do meu bairro e pedir sua inclusão no Projeto Sol. Fui lá, dei meu nome e o nome dele (meu filho trabalha, não pode fazer todo dia essa Via Sacra). A moça do tal Postinho falou que me ligaria assim que tivesse uma vaga, para eu levar meu netinho: 15 dias e nada. Está claríssimo para mim, que o Estado meteu sua colher na APAE e as coisas complicaram…

Dia desses a escola me chamou para ir buscar meu neto. Eram 15h. Eu respondi: não era pra eu ir às 15h30? Era, mas os meninos o incentivaram a virar o lixo, a tirar o pipi pra fora e ele fez tudo que os meninos o incitaram. E não havia inspetor de alunos no recreio? Sim, havia.

E como agem com um menino que faz coisa errada? Lógico, castigo na diretoria. E o outro menino? O que incentivou? E por que tive de ir mais cedo se ele já está de castigo? Por que ele fugiu da diretoria.

Fui correndo… A professora com a porta fechada. Ele sozinho, sentadinho na quadra vendo uns adolescentes que jogavam bola na quadra. Não gostei e me preocupei: – não conseguem exercer autoridade com uma criança dócil, Down, ingênuo, como será com os marmanjos que lá estudam?

Uma criança chega à escola às 13h30 e tem de sair às 15h porque não têm quem tome conta dele o tempo integral. A escola fica numa região central entre o Cambuí e o centro. Duas avenidas de trânsito intenso. Se esse menino que nunca saiu sozinho, escapa numa abertura de portão, quem achará está criança numa cidade igual Campinas?

A mudança do Ensino era para separar os pequenos dos grandes. Como no meu tempo: elementar em prédio separado do ensino médio. Nesta escola não se separou. Escola imensa, misturada nos mesmos horários (exceto recreio), embora já tenha visto jovens alunos passando pelo pátio com os pequenos lá. Aliás, vi dois deles que pularam as grades foram pra rua e voltaram, pulando de volta. Ninguém viu.

Não culpo as professoras, não culpo a direção. Essa nossa Educação está toda errada. A verdade é que não tem gente competente cuidando da Secretaria da Educação e nem no MEC. Haja vista essa tal ideologia de Gênero – um abuso à família e seus valores.

Quem vai alfabetizar meu neto?

Fonoaudióloga a gente paga por fora, psicólogo idem, mas professora? Que estão fazendo com nossos impostos? Francamente, somos o Estado mais rico da Federação! Estou indignada! Crianças como Ian, serão, se não bem assistidas, um peso morto para o país no futuro, que já não dá conta dos pepinos que tem para resolver. Meu neto é um caso entre centenas.

Quando vamos brincar de “gente grande” neste Brasil? Vou reclamar para quem? Pro bispo?

Hello!!! Governador Alkimin, precisa, por favor, olhar a Escola com olhos de amor e sabedoria. Visão de mundo, governador. Um olhar macro para o futuro. Gastei minha vida dentro de escolas. Conheço TUDO de escola, fui professora do jardim, ginásio, colegial e um pouco de universidade. E posso dizer de cátedra: cada dia está pior!

Agora, está tal de INCLUSÃO é uma vitrine para dar cacife político a quem a propôs. Nunca funcionou. Uma lei para inglês ver. Até quando vamos ser enganados desse jeito? Indignação é pouco para o que estou sentindo há 2 meses.

Quando vamos dar à Educação a importância e a seriedade que merece? Estou inconformada com tudo isso, se está sendo difícil a mim, uma mulher esclarecida, com acesso às coisas, como se sentirá uma pobre mãe sem recursos e tempo?

Espero que este desabafo chegue a “quem de direito“ possa me dar uma luz e lembrar-se que muitos são os necessitados e poucos ligam pra eles. Estou cansada deste país de faz-de-conta.

Por que todos fingem que a INCLUSÃO existe e funciona?

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Ercília Pollice
Ercília Ferraz de Arruda Pollice reside em Campinas, é formada em Letras pela USC – Bauru, bacharel em Literatura Portuguesa. Escritora, conta com 10 livros publicados, entre eles livros infantis e juvenis, além de inúmeras crônicas e poemas. Integra a Academia Campineira de Letras e Artes e Academia Bauruense de Letras. Foi indicada para o Prêmio Jabuti pela autoria do livro infanto–juvenil “Só, de vez em quando” da Editora FTD. Ercília também é artista plástica catalogada no Cat. Júlio Lousada. Aquarelista, já realizou dezenas de exposições individuais e coletivas em diversos salões e galerias, inclusive em Paris.Alegre, de bem com a vida, adora relacionar-se. Sua preferência é escrever sobre relacionamentos em todas as áreas e níveis. Também tem uma queda por comentar fatos políticos e suas implicações, sempre com bom humor e alguma ironia.Poeta, fala só do amor. Quando escreve faz pinturas de palavras, sua arma maior. Quando pinta faz poemas de cores.Tem 3 filhos, escreveu vários livros e já plantou centenas de árvores. Agora, é desfrutar os bons momentos que a vida sempre oferece àqueles que tem olhos e ouvidos para ouvir e entender estrelas.

3 Comentários

  1. Só discordo quando a Ercília Pollice diz: “esta tal de INCLUSÃO é uma vitrine para dar cacife político a quem a propôs. Nunca funcionou. Uma lei para inglês ver”
    A verdade é que juntar alunos ditos normais e especiais na mesma sala é apenas para economizar e sobrar mais dinheiro para eles roubarem.
    A mesma coisa acontece com a extinção dos hospitais psiquiátricos, jogaram as pessoas na rua, sem assistência médica, sem nada.

    José Geraldo

  2. Concordo com o “desabafo” da Sra. Ercilia, amo nosso país Brasil, mas tenho vergonha dos nossos representantes, pois a educação, a saúde e a segurança, que são prioridade estão completamente abandonados, a corrupção corre solta entre a classe política, qdo precisamos de algum serviço não temos, além de sermos pessimamente atendidos. No próximo ano temos eleição, vamos votar correto ou anular o voto, mas nunca os mesmos.

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