Vida Engraçada! Nascemos sós e morreremos sós

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Imagem: Shutterstock

Esta vida é deveras engraçada. Quando você é jovem e cheia de sonhos, você vive cercada de pessoas; sua casa é sempre um ar de festa, de coisas a acontecerem, sonhos a serem realizados, jabuticabas a serem degustadas, devagarinho, porque a vida nos promete longevidade.

Claro que a vida não nos promete nada, nós é que a percebemos assim, talvez, pelo fato de ainda não termos tido tempo de apreendê-la. Quando jovens, antes do casamento, os amigos nos cercam – a turma. Ah! Coisa boa a turma…

Os segredos, os cochichos, as fofocas, as festas, o compartilhar de alegrias e tristezas, que nada mais são que uma sombra, uma aparição, um vislumbre do que haveremos de ainda passar. Depois, casamento, preparativos, enxoval, festa, ilusão de que somos a princesa de algum conto de fadas moderno. Lua de mel – maravilha das maravilhas, o homem amado, ali ao seu lado dia e noite, dormindo abraçadinho com você na mesma cama, amando você a mais pequena chance de fazê-lo.

Você é feliz e ri à toa!

As coisas engrenam, a casa nova, a comidinha boa para o maridinho (não se assustem, isso era usual), receber a família, amigos – tudo perfeito. E a vida vai numa sequência de harmonia, como numa partitura de um sinfonia bem feita e que promete ter um lindo arremate.

A espera do primeiro filho. Tudo mudando no seu corpo e no seu “humor” interno. Você tem sensações indescritíveis de emoções, a um só tempo, lindas e confusas… tanto é que passa da alegria incontida às lágrimas incontidas também. O marido não sabe como reagir a este turbilhão de emoções e, é claro, deve estar sentindo as suas próprias. Nascimento de primeiro filho é um acontecimento imenso, assustador e de uma gratitude inexplicável.

Com o tempo você saberá, que cada filho é uma emoção diferente, assim como os livros que escreveu. Todavia, a maneira que você se sente ao olhar o primeiro bebê, gerado dentro de você, não há como pôr em palavras, mesmo para quem é bom com elas. A vida o vai levando de roldão, mal você se dá conta, de como as crianças crescem rápido, e como os anos se esvaem pelos seus dedos, sempre tão ocupados.

Mas o futuro está lá, à sua frente… sonhos, esperanças, planos feitos e desfeitos por contingências da vida, que independem de nossa vontade. Filhos crescidos, vestibulares, faculdades, sacrifícios de todas as partes, pois nem todos nascem em berço de ouro. Nada importa, pois o amor é grande, a família unida, muitas risadas em volta à mesa… mais coisas boas a recordar do que ruins.

Mas viver é um modo continuo, um gerúndio, sempre em movimento, e quando tudo se encaixa, perfeitamente, como dentes de uma engrenagem, uma surprezinha inesperada – seu amor fica doente e não resiste – falece.

Você se sente feito passarinho de uma asa só.

Contudo, tem de ser forte, não há espaço para esmorecer, todos esperam isso. Você precisa ser assim, sempre foi a sua força que rodou esta máquina de tantas e tão diferentes peças. Você sempre foi o óleo a azeitar-lhe as engrenagens.

Filhos crescem, saem de casa, como pássaros voando para a liberdade. Você os criou pro mundo, para serem fortes, independentes e vencedores, ensinou-os tal qual águia aos seus filhotes, a alçar voos sem medo das alturas. Mas os filhotes não são iguais, assim como não são iguais os dedos das mãos, um deles não consegue se libertar, nem mesmo com sua ajuda, de verdade nem pode entender, tão imaturo e seguro era, o porquê do pai ter partido.

E sua fuga foi da pior maneira – a música, o que em si mesmo foi um bem, pois segurou-o na sua pouca lucidez. Tocar na noite tem seus perigos, entrou aos poucos num caminho complicado e intranquilo, quase sem volta. Você se sentia perdida, mas nunca em hipótese alguma, abriu seu coração para alguém.

Sempre teve amigos maravilhosos. Poderia tê-lo feito, mas não o fez. Continuou sua vidinha, como se nada estivesse acontecendo. Chorava sozinha, orava, orava, orava, mas não aceitava nada daquilo. Como sua genética é propensa à alegria, pôs as mãos à obra e mudou de cidade, com angústia de enfrentar o desconhecido, mas com determinação e coragem. Lutou, passou por momentos complicados, difíceis.

A vida havia lhe dado uma segunda chance com um segundo amor, mas foi inconsistente nesta dádiva. Perdeu-o para a morte em muito pouco tempo, mas deu-lhe a possibilidade de escolha de outra vida, e partiu para sua procura, algumas vezes meio insana, de ser feliz de novo. E, foi, à maneira, muitas vezes, infantil, crédula demais, sempre rodeada de uma esperança, que não permitia morrer.

Filhos casados, netos à vista. Renovação.

Quando seu neto mais velho nasceu, uma emoção já esquecida, reviveu, mas acompanhada de uma sombra a querer tirar o brilho do momento. O bebê nascera com Síndrome de Down. Uma tristeza tão grande tomou conta de seu coração. Não conseguia parar de chorar. Olhava o bebê e chorava. Mas, o coração desta mulher, é cheio de amor, graças aos céus e lá mesmo no hospital, já iniciou seu ciclo de aceitação. E foi tomada de uma afeição tão grande por aquele serzinho, tão frágil, e seu amor falou mais forte, e sua força reacendeu e sua esperança ressuscitou qual Fênix das cinzas. E, lá foi você tratar de dar-lhe o melhor de si mesma em amor e trabalho, cumplicidade e paciência.

Agora você tem quatro netinhos: 7, 6, 2 e 3 anos.

Vai comemorar hoje os 2 anos de um deles e os 3 da outra. Todos vão estar reunidos, alegres, brindando a vida. Você se sente tranquila, gosto de dever cumprido quase por inteiro, mas, apreensiva pelo que falta cumprir, embora isto já não seja atribuição de sua competência.

Está na última etapa da vida. É feliz? Sim é! Mas, porém, todavia, contudo, se bem que, falta- lhe risos de família durante seus dias e noites. Falta alguém com quem possa dividir uma taça de vinho em uma noite qualquer. Falta-lhe mais almoços em família. Sempre gostou de reuniões de família.Os filhos alçaram voo como você sonhou.

Cada qual cuidando de si mesmo e dos seus, que são parte de você, mas não preenchem mais seus dias nem seus afazeres, que são outros. Aquela conversa em volta à mesa, ainda teima em voltar aos seus ouvidos, ouve-lhes os apartes, as risadas, as caçoadas, as brincadeiras.

Esta é a vida! Nascemos sós e morreremos sós.

Não sabe quanto tempo a vida lhe reserva em dias, mas sabe que dentro dela, tudo continua intacto. A casa alegre, a música tocando no CD do living onde todos se reuniam, os Natais cheios de presentes e presenças que foram se afastando uma a uma…

Dentro de você, o ontem se torna agora, basta ouvir uma canção qualquer daquelas que amavam ouvir, e que ainda ama e ouve até hoje. A mãe ainda está presente em seus pensamentos a afagar-lhe os cabelos, quando você se deitava em seu colo mesmo depois de adulta e já mãe também.

O homem amado e escolhido, volta e meia vem assombrar-lhe os sonhos, com uma aparição rápida e um desaparecimento repentino, deixando em você sempre uma sensação de busca constante e um vazio que oprime.

Quando amanhece o dia, a vida retoma com ares de inteireza, e você a leva como quer, sem deixar-se conduzir. Será isso uma força ou uma fraqueza? Não sabe, e tem quase a certeza de que nunca saberá.

E o amor? Ah! Amor é como o vento, vai um e vem um cento… Você ama o amor, não o amado, assim fica fácil de administrar as perdas inexoráveis que foi tendo pela vida a fora, ou pela vida a dentro… sei lá, entramos na vida e vamos, ou a vida nos leva à uma saída e vamos?

Ainda sonha, fazer o que? Tem alma de poeta, sangue de artista, genética de guerreira.
Claro que, agora, com mais cautela, sem tanta ansiedade de ver tudo se realizar. Tem consciência de que qualquer realização já é lucro, exige comemoração. Brinda a vida todo dia, com companhia ou sem ela.

O futuro agora é curtinho, e muitas expectativas têm e devem ser deixadas de lado.
Mas, viver é bom e você gosta. Aceita tudo como um presente, pois sabe de antemão, que ninguém jamais vai entender o que se passa na mente e no coração de alguém tão intensa, tão cheia de vida, tão verdadeira em suas escolhas e desistências. Solidão, assim como alegria não se divide. São atos solitários, únicos e individuais. O compartilhar nesta nossa vida, são sombras.

Cumplicidade a dois, só no arremate do ato de amar com paixão. Esse é o momento dividido! O resto o é apenas em parte. Quando há junção de almas e corpos, a unidade do ser é restabelecida como na fecundação. Tudo o mais são momentos solitários. Você os vivenciou a sua maneira, e as pessoas presentes não o perceberam da mesma forma.

Conclusão: somos solitários até nas emoções, mesmo que quase ninguém se aperceba disto.

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Ercília Pollice
Ercília Ferraz de Arruda Pollice reside em Campinas, é formada em Letras pela USC – Bauru, bacharel em Literatura Portuguesa. Escritora, conta com 10 livros publicados, entre eles livros infantis e juvenis, além de inúmeras crônicas e poemas. Integra a Academia Campineira de Letras e Artes e Academia Bauruense de Letras. Foi indicada para o Prêmio Jabuti pela autoria do livro infanto–juvenil “Só, de vez em quando” da Editora FTD. Ercília também é artista plástica catalogada no Cat. Júlio Lousada. Aquarelista, já realizou dezenas de exposições individuais e coletivas em diversos salões e galerias, inclusive em Paris.Alegre, de bem com a vida, adora relacionar-se. Sua preferência é escrever sobre relacionamentos em todas as áreas e níveis. Também tem uma queda por comentar fatos políticos e suas implicações, sempre com bom humor e alguma ironia.Poeta, fala só do amor. Quando escreve faz pinturas de palavras, sua arma maior. Quando pinta faz poemas de cores.Tem 3 filhos, escreveu vários livros e já plantou centenas de árvores. Agora, é desfrutar os bons momentos que a vida sempre oferece àqueles que tem olhos e ouvidos para ouvir e entender estrelas.

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