Mudando o cenário da violência sexual

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Imagem: Gellinger / Shutterstock

Será que existem argumentos que justifiquem a violência sexual? Como, por exemplo, a roupa que você usa. Usar shorts na própria casa e ser violentada pelo cunhado, justifica?  Vestir uma calça legging na própria casa e ser estuprada por um desconhecido? Mas e agora, mudando o cenário… Sair na rua de shorts e ser abusada por “amigos” após lhe oferecerem bebida, explica a atitude com ela?

Não existe qualquer tipo de argumento usado que valida qualquer tentativa de defesa frente essa situação. E o que hoje em dia ainda acontece é que quem passou por isso se sente acusada de ter provocado o fato. Além de ter vivenciado toda a violência, ainda invertem-se as responsabilidades e ainda escuta-se como busca de explicações, a resposta estando na vítima e não no agressor, o autor da ação.

Não acredito que seja apropriado fazer uma padronização fechada dos comportamentos nem das reações de quem sofreu abuso. Não se diferencia qual o nível do abuso, a complexidade do contato físico e do tratamento médico, se o agressor é conhecido ou não, se foi evento único, recorrente, se houve ameaças envolvidas ou não. O ser humano é singular e seus enfrentamentos diferenciados também.

Existem as mais diversas reações frente à violência sexual. No acompanhamento psicológico conseguimos visualizar nos discursos períodos de ansiedade, compulsão, cefaleia, somatizações, angústia, paranoia (devido aos pensamentos de vingança do agressor e de sua família quando é conhecido em seu ciclo social ou não), preocupação e medo de reencontrá-lo  e, ainda depois de acontecido, lidar com  intenso sofrimento em ficar repensando nos julgamentos externos e como sendo você o provocador do abuso,  gerando culpa, entre outros infinitos sintomas e comportamentos.

Muitas mães se angustiam em como podem identificar se seu filho foi ou está em situação de abuso sexual. Não existe um indicador absoluto para isso. Existe a prevenção! Em que as famílias precisam de aproximação em seus vínculos, para que consigam se libertar em qualquer tipo de dificuldade em pedir ajuda e falar de seus pensamentos e sentimentos. Validando, claro, a ajuda de profissionais que possam o auxiliar e o orientar no caminho de equilíbrio físico e mental.

A sociedade, inclusive profissionais que recebem esse público para o acolher e o auxiliar no tratamento, tanto em instância jurídica, quanto em instância da saúde, precisam parar de tentar buscar explicações do crime na vítima.  Não sendo ela a responsável, nem pelo que veste, nem por que horas está na rua, “pedindo para algo de ruim acontecer”, sendo que muitos casos acontecem na própria casa, e além disso, muitas pessoas necessitam estar na rua, por exemplo, de madrugada, para se deslocar até trabalho, faculdade… Atualmente, invertem-se os valores onde fazem de você o culpado por estar no dia, hora, local errados e não como o culpado e o responsável que feriu sua liberdade.

Acredito que autores de delito necessitam também ser ouvidos, para que nós, enquanto cidadãos e agentes de transformações, possamos estudar e encontrar sim, neles, os motivos, as explicações que tanto nos pulsam a compreender a violência e a tentativa de construir meios e mudanças para evitar e prevenir o abuso sexual, e o ciclo em que está envolvido.

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Marcela Eiras Rubio
Graduada em Psicologia pela Universidade São Marcos, Aprimoramento Profissional em Atendimento Interdisciplinar em Geriatria e Gerontologia pelo IAMSPE (Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual) e pós-graduação em Gestão de Pessoas pelo SENAC. Já atuou como psicóloga no Programa Melhor em Casa do Hospital Municipal Dr. Moyses Deustch – Mboi Mirim. Atualmente atua como psicóloga no HGIS (Hospital Geral de Itapecerica da Serra).

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