Dilemas ilimitados da vida adulta

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Meu sobrinho de oito anos está passando o restante das férias escolares em minha casa. Ontem acordei cedinho para começar a trabalhar de home office, um privilégio de poucos, reconheço.

Saí para trabalhar depois do almoço e ele ainda estava dormindo. Foi com um certo recalque que eu constatei a inveja que eu senti. Não do meu sobrinho, obviamente, mas da infância que ele ainda tem e eu nunca mais vou viver, a não ser nas minhas memórias.

Assistir TV comendo bolacha Passatempo é um sonho que eu só posso realizar em feriados – e olhe lá. Tirar aquela soneca de tarde? Talvez nas férias, mas o corpo já não é mais o mesmo: a coluna insiste em lembrar que não temos mais 10 anos de idade. Fora que trabalhar é preciso, afinal, os boletos não param de chegar, mesmo nas sonhadas e merecidas férias.

Crescer é, na verdade, uma sucessão de dilemas que têm um cerne único: dinheiro. Ou a falta dele, a depender da perspectiva pela qual olhamos.

Ontem, por exemplo, recebi um e-mail marketing de sofás, que a linguagem publicitária achou por bem chamar de “estofados”. Achei legal, oportuno, estava mesmo pensando em dar uma modernizada na sala. Abri e fui ver os modelos disponíveis. Foi aí que eu tive um princípio de ataque cardíaco aos 28 anos de idade: eu vi “ofertas” que chegavam a CINCO dígitos.

Sério, tinha um lá que custava o preço de um Ford Ká usado e ainda sobrava um chorinho para você abastecer com gasolina durante o ano todo, mesmo depois do último aumento de preços.

Pensei: em que mundo esse povo está vivendo em que não há crise e alguém consegue pagar mais de dez mil reais em um jogo de sofás? Alguém me dá o caminho das pedras que eu vou correr agora mesmo para lá!

Pensei novamente: há de ter algum modelo que caiba no meu bolso, afinal, eu não estaria neste mailing gratuitamente. Rolei o e-mail até o final. Não tinha nada, nadinha, o que de certa forma acabou com a minha auto estima financeira.

Daí que eu decidi que minha futura decoração será japonesa: vou jogar um colchão na sala, umas almofadas, uns panos “daora” com estampa de cerejeira e acomodar todo mundo no melhor estilo oriental enquanto recebo amigos para falar dos dilemas ilimitados da vida adulta, um tópico que, infelizmente e diferente do dinheiro, não há de cessar tão cedo.

P.S.: hoje, 25 de julho, é dia do escritor. Nem sei o que seria de mim se eu não soubesse trocar letras. Parabéns a todos nós!

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Raphael Scire
Raphael Scire gosta de teledramaturgia, dramaturgia, e na verdade, gosta mesmo é de um bom drama. Jornalista, autor do livro Crimes no horário nobre – um passeio pela obra de Silvio de Abreu (Giostri, 2013), é também dramaturgo e, em 2012 teve sua peça Sucesso com C, sobre o universo de uma família pertencente à nova classe C brasileira, selecionada pelo concurso Dramaturgias Urgentes, promovido pelo Centro Cultural Banco do Brasil. Em 2014, participou da equipe de roteiro do programa Tudo pela Audiência (Multishow). Foi colaborador de roteiro no documentário Lutando Para Vencer (2016) e escreveu o roteiro do documentário Laerte-se, ainda inédito, sobre a cartunista Laerte Coutinho. Também escreve críticas de novelas para o site Notícias da TV, parceiro do UOL.

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