Menufobia

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Imagem: Alterfines / Shutterstock

Descobri ontem, durante um jantar de comemoração a um projeto de trabalho longuíssimo, que eu sofro de menufobia. Estávamos em quatro pessoas na mesa e precisávamos fazer o pedido. O garçom nos aguardava com paciência e quando todos já haviam decidido seus respectivos pratos, eu ainda passava os olhos para cima e para baixo do cardápio sem conseguir decidir nada.

Na verdade, as letras se embaralhavam diante da minha vista. Não havia concentração na minha mente e eu fiquei ali, parado, com o menu na mão e o garçom a esperar. Até que uma das pessoas da mesa chamou a minha atenção para a demora.

– Não sei o que pedir, eu disse.

– Como não sabe? Tanta opção, alguém argumentou.

– É esse o problema. Não me dê opções, eu fico perdido, justifiquei, e completei: – Escolhe aí, disse eu, sem saber realmente o que eu queria comer.

Estávamos em um restaurante cujo conceito é o de compartilhar a comida, ou seja, cada um escolhe um prato, que vem em quantidades pequenas, e eles são divididos por todos na mesa. Minha decisão de deixar por conta dos outros convidados a escolha do que eu também comeria, assim, não afetaria em nada a noite.

Mas aconteceu que veio um clique na minha mente. Não era a primeira vez que este tipo de bloqueio me ocorria. Eu sempre tive pavor de escolher um prato e isso se estende a outras áreas da minha vida. Tomar decisões, por exemplo, é uma das coisas mais complicadas que eu tenho que fazer. E crescer é o que, senão tomar decisões?

Já desejei ser mais impulsivo. Já me amaldiçoei por não ter a agilidade necessária para fazer algo. Penso, raciocino, vejo os planos A, B, C e sigo até o Z se for preciso. Aí, sim, eu decido por algo. Mas como fazer isso diante de uma mesa cheia e um garçom parado ao seu lado com a caneta em punho e um bloquinho gritando para ser rabiscado? Impossível.

Sou virginiano e, dizem, Virgem é o signo mais prático do zodíaco. Ou seja, esse tipo de problemas eu jamais deveria enfrentar. A verdade é que a tal da menufobia nada mais é do que meu ascendente em Gêmeos ferrando toda a minha praticidade virginiana.

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Raphael Scire
Raphael Scire gosta de teledramaturgia, dramaturgia, e na verdade, gosta mesmo é de um bom drama. Jornalista, autor do livro Crimes no horário nobre – um passeio pela obra de Silvio de Abreu (Giostri, 2013), é também dramaturgo e, em 2012 teve sua peça Sucesso com C, sobre o universo de uma família pertencente à nova classe C brasileira, selecionada pelo concurso Dramaturgias Urgentes, promovido pelo Centro Cultural Banco do Brasil. Em 2014, participou da equipe de roteiro do programa Tudo pela Audiência (Multishow). Foi colaborador de roteiro no documentário Lutando Para Vencer (2016) e escreveu o roteiro do documentário Laerte-se, ainda inédito, sobre a cartunista Laerte Coutinho. Também escreve críticas de novelas para o site Notícias da TV, parceiro do UOL.

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