Procura-se: Professora Taís

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Imagem: Facethebook / Shutterstock

Ultimamente, meu pensamento tem sido tomado por uma pessoa em especial, aquela que me formou um cidadão progressista (assim creio eu), a professora de história da sétima série cujo nome era “Taís sem agá”, como ela gostava de enfatizar na hora das provas, ameaçando os alunos com perda de pontos caso a letra imprópria surgisse nos respectivos cabeçalhos, e o sobrenome não lembro, era alguma coisa italianada, que começava com M, mas também podia ser com B.

Havia muito Taís já me encantava, desde quando, na gincana da quinta série da escola, na qual eu competia pela equipe vermelha, Taís se destacou entre todos os mestres na ocasião em que o portal de bexigas que decorava a quadra poliesportiva enganchou no portão e um bando de professores tentava a todo custo desemperrar a passagem e liberar os alunos daquela clausura involuntária. Eis que Taís surge do nada e, tal qual uma aranha, começa a escalar o portão para conseguir, enfim, resolver o problema, deixando o professor de educação física estupefato e eu, ali na minha admiração secreta, boquiaberto e só pensando: “mano, que diva maloqueira que ela é, meu Deus!”.

Vanguardista, Taís era na época o que hoje podemos chamar de MULHERÃO DA PORRA!

Passei ainda a sexta série inteira ouvindo relatos dos alunos mais velhos de como as aulas de Taís eram “daora e coisa e tal” e nutrindo o desejo de um dia ser seu aluno. Aquele seu prenome me fascinava também, Taís não era nome de professora, era senão o de minhas amigas, meninas da mesma idade que eu. Taís devia ser das nossas. E era.

A sétima série enfim chegou e com ela as aulas de Taís. Foi com ela que eu aprendi as maravilhas advindas das Revoluções, tanto a Inglesa quanto a Francesa. E quem mais adequado a nos ensinar sobre revoluções senão aquela que quebrava paradigmas de comportamento como naquele dia da gincana? Eu lembro do dez, escrito por extenso na minha prova de história em que eu pude versar sobre jacobinos e girondinos, esquerda e direita, revolucionários e conservadores, um dez escrito com uma caneta de tinta roxa e uma única correção em toda a minha prova, um corte numa cedilha que eu inadvertidamente havia escrito na palavra “francês”.

E depois desse dez vieram muitos e muitos outros. Taís conseguiu também me fazer ficar apaixonado por Anna Bolena e por toda a reviravolta na ruptura do Estado Inglês com a Igreja Católica, com o surgimento do anglicanismo e com o desespero de Henrique VIII diante da falta de um herdeiro varão, obrigando-o a se casar novamente e a abandonar Anna Bolena.

Sua narrativa nos prendia, seu jeito adolescente nos fascinava. Taís me lembrava Alanis Morissette, com os cabelos grandes que invariavelmente estavam trançados, os olhos fundos, de um castanho escurecido, saltantes e o sorriso largo no rosto. Taís, por onde andas? Eu já a procurei em tudo quanto é canto do Facebook e nada…

O ano era o de 2001 e eu me lembro como se fosse hoje de sua aula no dia seguinte ao ataque terrorista ao World Trade Center quando ela, mesmo atrasada no conteúdo, deu um show sobre o Oriente Médio e nos explicou a origem dos conflitos que levaram Osama Bin Laden a explodir dois aviões contra o símbolo máximo do império capitalista. E ela pediu para que a classe escrevesse uma carta ao então presidente FHC explicando a situação que ela expora em sala e pedindo por paz. Recorri a Nostradamus, a tudo o que ela nos explicara e ganhei outro dez – ela certamente deve ter relevado o conteúdo “místico-nostradamus”. Gente, eu deveria ter emoldurado aquela carta, estava muito melhor do que qualquer crítica de novela que eu já escrevi na vida!

Na oitava série, Taís já não estava mais na escola, havia sido mandada embora e junto com sua ausência, vieram os anos sombrios de adolescência, de bullyings, de semi desamparo.

Eu queria verdadeiramente agradecer Taís por ter me ajudado na minha formação. Sem os grandes mestres a gente não é ninguém e Taís foi gigante, ao menos para mim. Se alguém souber do paradeiro de Taís, por favor me avise?!

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Raphael Scire
Raphael Scire gosta de teledramaturgia, dramaturgia, e na verdade, gosta mesmo é de um bom drama. Jornalista, autor do livro Crimes no horário nobre – um passeio pela obra de Silvio de Abreu (Giostri, 2013), é também dramaturgo e, em 2012 teve sua peça Sucesso com C, sobre o universo de uma família pertencente à nova classe C brasileira, selecionada pelo concurso Dramaturgias Urgentes, promovido pelo Centro Cultural Banco do Brasil. Em 2014, participou da equipe de roteiro do programa Tudo pela Audiência (Multishow). Foi colaborador de roteiro no documentário Lutando Para Vencer (2016) e escreveu o roteiro do documentário Laerte-se, ainda inédito, sobre a cartunista Laerte Coutinho. Também escreve críticas de novelas para o site Notícias da TV, parceiro do UOL.

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