Verdades risíveis

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Relógio estilizado
Imagem: geralt / shutterstock

A situação não é das melhores, o mar não tá pra peixe, a jeripoca não vai piar. O Congresso está um caos, o presidente é amoral, fez conchavos e pagou deputados em forma de verba parlamentar para continuar no cargo. Zé Simão cravou há anos que o Brasil é o país da piada pronta, a gente ri com e da própria desgraça enquanto a internet lacra com memes e que tais.

Nossa conta tem vinte reais disponíveis para saque, o mês ainda tem 16 dias pela frente, os boletos não param de chegar e, pior, de vencer. Mas o banco nos dá dez dias sem juros no cheque especial. Tem uma luz no fim do mês e ela se chama LIS do Itaú.

O namoro está uma merda, mas a gente vai levando, levando, afinal, é melhor estar mal acompanhado do que solteiro em tempos de relações líquidas e frugais. O pé na bunda é dolorido. Tadinha, ela não daria conta.

Os amigos nem dão parabéns no seu aniversário, mas fazem questão da sua presença na comemoração deles na balada. Se dez pessoas comparecerem, o acompanhante do aniversariante não paga a entrada, então é bom que você vá mesmo, não apenas confirme o evento nas redes sociais.

Ah, na balada para a qual você foi convidado, tem que pagar para entrar, mas é consumação, ou seja, você vai beber o que pagar e a cerveja vai custar 10 reais apenas. E você nem vai sentir tanto assim. E você nem bebe cerveja.

As cobranças da chefia são insuportáveis. Os dias se arrastam atrás de uma tela de computador embaçada de um emprego burocrático que nos mantém ali apenas pelo dinheiro do salário mensal. Ele há de chegar e cobrir o empréstimo pessoal contratado a toque de caixa porque o patrão atrasou no mês anterior. Com fé, ele só vai atrasar uma semana desta vez.

2018 está aí e os possíveis candidatos para ocupar o maior cargo da política nacional são de chorar: se não de rir, pelo deboche e desfaçatez com que se apresentam, de desespero, por talvez ter que escolher o menos pior, não o melhor.

O convênio aumenta a mensalidade em 13% e para ajudar a sua nova idade coincide com o início do novo ciclo de cobrança. Para facilitar a vida dos segurados, eles agora implementaram um sistema de identificação digital com iToken. É uma pena que na hora da consulta, com a secretária do consultório olhando para a sua cara com impaciência, o seu pacote de dados de internet móvel acabe e você tenha que pedir a senha do wi-fi, que ela não dá porque está proibida pelo médico patrão.

E para facilitar ainda mais, o pessoal do convênio resolveu abrir rede própria de hospitais. Para marcar um exame de sangue, você pode ir para a fila do SUS, é mais rápida. Ou esquentar as orelhas no telefone até conseguir um agendamento para dali um mês.

A gente que escrever um livro mas ninguém dá like nos nossos posts no Facebook. Aquele plano de ser fotógrafo profissional esbarra na falta de foco das nossas fotos no Instagram. É tudo conceitual, justificamos assim nossa inaptidão para os cliques. Nosso canal no Youtube tem menos inscritos que o curso menos disputado da USP, mas mesmo assim a gente acalenta em segredo o sonho de fazer um filme cabeça que vai arrebatar a crítica e o público e quebrar recordes de bilheteria sem que para isso igreja nenhuma precise fazer campanha para que os fiéis aumentem o dízimo e assim consigam comprar ingressos que não lotarão as salas de cinema.

E a gente relata isso tudo com o maior bom humor, ou ironia, você decide como vai ler. Não fosse assim, viver se tornaria um fardo insuportável. A realidade é que a gente ameniza as verdades da vida colocando um hahahahaha no final das frases.

Fazer o quê, né? hahahahaha

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Raphael Scire
Raphael Scire gosta de teledramaturgia, dramaturgia, e na verdade, gosta mesmo é de um bom drama. Jornalista, autor do livro Crimes no horário nobre – um passeio pela obra de Silvio de Abreu (Giostri, 2013), é também dramaturgo e, em 2012 teve sua peça Sucesso com C, sobre o universo de uma família pertencente à nova classe C brasileira, selecionada pelo concurso Dramaturgias Urgentes, promovido pelo Centro Cultural Banco do Brasil. Em 2014, participou da equipe de roteiro do programa Tudo pela Audiência (Multishow). Foi colaborador de roteiro no documentário Lutando Para Vencer (2016) e escreveu o roteiro do documentário Laerte-se, ainda inédito, sobre a cartunista Laerte Coutinho. Também escreve críticas de novelas para o site Notícias da TV, parceiro do UOL.

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