Andrea Franco - andrea.franco@plenamulher.com.br
17/12/2009
Abuso sexual sofrido na infância pode marcar por quase toda a vida
Na Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da Organização Mundial da Saúde (OMS), a pedofilia é incluída entre os Transtornos de Personalidade e de Comportamento em Adultos e é definida “como uma preferência sexual por crianças, usualmente de idade pré-puberal ou no início da puberdade.
Alguns pedófilos são atraídos apenas por meninas, outros apenas por meninos e outros ainda estão interessados em ambos os sexos”.
Para se ter uma idéia da gravidade do problema, em 2001, um levantamento estatístico realizado no Brasil mostrou que 80% das vítimas de abuso sexual eram crianças e adolescentes do sexo feminino. Para a criança que sofre a violência sexual, torna-se muito difícil a procura de ajuda, pois, muitas vezes, pensa que ninguém irá dar crédito à ela, guardando sua história solitariamente por longos anos, até chegar uma época em que novas condições possibilitam a revelação.
A educadora social pernambucana Nita Maria das Neves do Espírito Santo, 49 anos, sabe muito bem o que é isso. Ela sofreu abuso sexual por duas vezes, quando tinha seis anos, praticado por um rapaz que era vizinho.
“Não existe uma explicação para ocorrer o abuso sexual. Pode acontecer em todas as classes sociais e em sua maioria é praticado por alguém que a criança conhece, confia e ama. Os maiores índices de abusadores são representados pelo pai, padrasto, tio, avô ou alguém íntimo da família. A maior ocorrência é com crianças do sexo feminino, embora os meninos também sejam frequentemente abusados”, diz a psicóloga Edna Malheiros, do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Membro do Espaço Família – Serviços Jurídicos e Terapêuticos, onde atua como Formadora em Terapia Comunitária, em Recife Na primeira vez em que sofreu abuso, Nita estava na casa dos pais do rapaz, acompanhando sua avó e sua tia, que eram muito amigas da mãe dele e vizinhas há um bom tempo. Em uma sala grande estavam as mulheres conversando e o rapaz estava numa rede, em outra sala. Quando Nita passou por ele, o rapaz chamou-a e segurou-a pelo braço, dizendo que ia mostrar uma coisa que ela iria gostar. Pegando-a pelo braço de modo que ela não poderia escapar, levou-a até o quarto dele e tirou-lhe a roupa. O rapaz, que também ficou nu, esfregou-se no corpo da pequena Nita e se masturbou. Como a tia e a avó de Nita estavam na sala próxima, não foi dessa vez que o agressor forçou mais coisas.
“A pedofilia é uma psicopatologia, um desvio da sexualidade, de caráter compulsivo e obsessivo, em que adultos têm atração sexual por crianças e adolescentes. O abusador sexual é, em geral, uma pessoa comum. É alguém que pode ter uma profissão e até ter destaque nela, pode ter uma família e até ser repressor e moralista, pode ter um bom acervo intelectual. Enfim, aos olhos sociais e familiares pode ser considerado um cidadão aparentemente normal, um cumpridor das suas obrigações, que mantêm preservadas as demais áreas da sua personalidade. Pode ser agressivo, mas na maioria das vezes, ele usa da violência silenciosa, da ameaça verbal, ou apenas velada, é covarde, tem muito medo e sempre vai negar o abuso quando for denunciado ou descoberto”, explica a Dra. Edna Malheiros, que realizou pesquisa sobre a “Qualidade do Atendimento às Mulheres Vítimas de Violência Sexual no Estado de Pernambuco”.
Cerca de duas semanas depois do incidente, Nita estava brincando com a irmã do rapaz e a sua prima num depósito de milho e feijão. Como elas estavam pulando em cima dos cereais, o agressor reclamou. Sua prima e a irmã dele correram. Nita não conseguiu fugir, paralisada por causa do temor. Ele ameaçou contar tudo para sua tia se ela não fizesse o que ele queria. Como Nita ficou com medo, ele fez o que quis. Ele não a deixou ir embora, violentou-a com o dedo e novamente se masturbou nela.
Após a violência, a pequena Nita viveu mais um pesadelo. Seu agressor falou que se a família dela soubesse do que havia acontecido, todos a chamariam de safada e iriam bater nela, porque o que ela tinha feito com ele era um pecado grave. Nita acreditou, e por medo e vergonha nunca falou nada para ninguém. Ela morava com a avó e um irmão mais velho.
Ela lembra que sua avó viu seu short sujo de sangue e comentou com uma amiga, mas Nita não escutou direito o que elas falavam, só que estavam falando da mancha de sangue. Naquele dia, ela quase morreu de medo que a avó descobrisse. “Sempre que eu estava no mesmo lugar que ele, aquele momento era uma tortura. Eu não conseguia prestar atenção em nada, não brincava, e tinha pavor de estar perto dele...”, conta Nita.
Ela entrava em pânico quando o seu agressor estava por perto, ninguém entendia o que estava acontecendo e ainda reclamavam do seu comportamento repentino. Uma vez sua tia ralhou por ela querer ficar perto das senhoras, dizendo que ela era muito curiosa e estava tentando ouvir a conversa dela e da avó. Mas Nita conta que era medo mesmo de ficar a sós com aquele homem.
Como pais e responsáveis devem agir para que as crianças não estejam vulneráveis ao abuso sexual? Que cuidados tomar?
“O diálogo com as crianças é sempre uma excelente forma de transmitir valores, costumes, regras sociais. Considerando que a criança não tem idade para compreender com adequação a questão sexual, ainda o adulto ou responsável deve explicar para a criança, de forma natural, que algumas pessoas podem tentar tocar suas partes íntimas (apelidadas carinhosamente de acordo com cada família), de uma forma que elas sintam ficar incomodadas e que, neste caso, elas devem se afastar dessa pessoa e, em seguida, contar o que aconteceu à mãe, ao pai ou à pessoa responsável por ela. É importante deixar claro para a criança que ela não deve estar sempre de acordo com iniciativas alheias para manter contato físico estreito e desconfortável, mesmo que sejam por parte de parentes próximos ou amigos”, recomenda a psicóloga Edna Malheiros, que tem especialização em “Impactos da Violência na Saúde”, promovido pelo Ministério da Saúde e participa de pesquisa sobre “Violência Doméstica e Gravidez na Adolescência”.
O trauma foi tão grande que Nita voltou a urinar na cama e só parou quando já tinha 12 anos, e foi morar longe dele. Ela tinha muitos pesadelos e acordava assustada. Ao completar 12 anos, Nita foi fazer a primeira comunhão e o padre pediu que ela ficasse de joelhos e jurasse falar só a verdade. A primeira coisa que passou pela sua cabeça foi o seu “maior pecado”, e ela pensou: “Não vou poder falar disso”. Ela não conseguiu dar uma palavra. O padre fez perguntas que ela não conseguiu entender. E ela conta que o pior foi tomar a hóstia em pecado, porque era assim que ela se sentia. Nita não teve mais contato com o agressor, já que ela saiu de Itapetim e foi estudar em Recife.
Aos 22 anos, já casada, mãe de um filho e grávida do segundo, ela voltou à cidade de Itapetim, Pernambuco. Foi visitar a tia e, ao entrar na casa, tomou o maior susto ao ver o seu algoz, lá, sentado. Quando ele a viu, xingou-a de vaca, porque ela estava grávida. “Naquele dia eu descobri que o pecado era dele, e me dei conta de que quando tudo aconteceu eu só tinha seis anos. Mas aí seria minha palavra contra a dele. A dor de não poder falar foi bem maior”, conta Nita.
Então, de novo, ela tentou esquecer. Mas o fato da mídia falar muito de pedofilia deixava Nita sem estrutura emocional. Assim, ela deixou de ver televisão para não ter de ver a sua história se repetindo com outras crianças.
Em 2000, Nita começou um trabalho em uma ONG, que assiste meninas que sofrem esse e outros tipos de abusos. Ao ouvir os relatos ela ficou muito mal e foi procurar alguém que a ouvisse mas que não falasse para ninguém. Foi a uma igreja evangélica e falou com a esposa do pastor, que, impressionada, não guardou segredo e contou para o marido. Nita então perdeu a confiança neles e de novo se calou.
A Mudança
Em março deste ano, um vizinho e “amigo” da sua irmã, abusou de sua sobrinha de dois anos e 9 meses. Nita quase enlouqueceu. Sem saber o que fazer, fez uma denúncia pelo Disque 100, em Recife, mas até agora nada foi resolvido.
As coisas começaram a mudar quando Nita recebeu um convite do publicitário Batista Jacques, pelo Orkut, para conhecer o site Plena Mulher. Nita leu uma matéria de mulheres que venceram barreiras e ela se interessou pelas histórias delas. A mulher focalizada na matéria a encheu de forças para lutar. Ela pensou “Se elas podem, eu também consigo”. Depois, leu a matéria “Diga não ao abuso”. Leu tudo umas três vezes, chorou muito, depois levantou a cabeça, foi ao Hospital das Clínicas de Pernambuco e falou pela primeira vez no assunto na terapia comunitária. A terapeuta encaminhou Nita para fazer um acompanhamento mais completo.
O Tratamento
Nos primeiros encontros, Nita mal falava, só chorava. Lembrar de tudo o que passou não foi fácil, mas com o tempo – ela conta –, foi ficando menos doloroso, ela foi tendo mais confiança nas terapeutas (são quatro psicólogas que a atendem). Ela contou para as psicólogas que decidiu fazer terapia, primeiro, porque leu no “Plena Mulher” as histórias de mulheres com mais de 40 anos que buscaram um recomeço. E depois, em junho, depois de ler a matéria sobre abusos ela tomou coragem e buscou tratamento psicológico.
Há alguns meses, só depois que já estava fazendo terapia é que ela contou (com a ajuda de um outro pastor) a sua história para as suas três filhas. Primeiro, o pastor ouviu tudo desde o começo e ele encorajou-a a contar para as filhas para acabar com aquele tormento. Então ela pediu que ele a ajudasse, e ele se propôs a ajudar no que fosse preciso. Um dia, sentaram todos juntos: ela, o pastor e as filhas, e ele mesmo contou. Sua filha mais velha chorava, e reclamava por que a mãe não havia confiado nela. A outra só fazia carinhos e dizia: “Não chora, não, mãe, já passou”. A caçula ficou estática, não falava nada. “Mas o alívio de não ter de esconder mais delas, não tem preço”, desabafa Nita, que atualmente está solteira. Só falta contar para o filho, que mora no Rio de Janeiro e irá visitá-la agora em dezembro.
Depois de 43 anos, Nita terá um Natal de alma mais leve, liberta do sofrimento. E certamente trilhará os dias do novo ano com mais ânimo, com a certeza de que uma nova era de paz se abre à sua frente.
Onde fazer denúncias de pedofilia: Outras matérias de COMPORTAMENTO
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