Um jeito especial de ser

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Imagem: 691806 / shutterstock

Em cada recomeço, uns prometendo estudar mais. Outros comerem menos gordura. Alguns não trabalharem tanto. A maioria querendo mesmo é ser feliz e sem saber como. Ou sabendo, mas não conseguindo.

Minha percepção é que, de modo geral, muita gente promete coisas que quase nunca cumprirão naqueles vagos planos de intenções de final e início de ano. Mas, faz parte da natureza humana esse tipo de promessa pois cria uma ilusão gostosa, gera um pouquinho de perdão e auto aceitação.

Nesse cenário marcha aquele sujeito que promete e, como um sacerdócio, cumpre ao pé da letra, o prometido. Por exemplo, quando decide emagrecer: a partir do dia “xis” (sempre há um dia para começar), tem início a luta e, de um momento para outro, o tipo deixa de comer gorduras, doces, frituras, refrigerantes; não vai mais a festas e, quando vai, fica no light, carta fora do baralho, chato absoluto. Resultado: desponta o processo de emagrecimento, mas, junto com ele, desaparece o viço, desbota-se o colorido, perde-se a graça. É justo que as pessoas cuidem da saúde. Nada contra isso. Mas não acredito em radicalismos: sejam eles no início, no meio ou no final de ano.

Outra coisa que acontece nesse período é a decisão por um curso especial, um esporte, um novo hobby. Excelentes atitudes. Só que muitas vezes sem a necessária vocação, sem o desejo verdadeiro e alardeadas aos quatro ventos. Mais como obrigação para justificar um descuido, uma ausência, um pecadinho que, na maioria das vezes, só existe na nossa cabeça. E segue-se o rito de iniciação: matrícula na escola, na academia, aquisição de tênis especial, agasalho fashion, bandanas, entre outros badulaques. E quase sempre os primeiros dias são maravilhosos: o ego nas alturas, novos amigos e dedicação integral. Em seguida a leve constatação do sacrifício, o início do arrependimento e a dúvida. Depois, uma ou outra falta, a desculpa esfarrapada e por fim “tchau”: a parafernália toda esquecida num armário.

Também conheço pessoas que se propõem a fazer uma determinada coisa e fazem questão de não “causar”. Optam por não serem chatas e atingem seus objetivos, discretamente, fazendo da atividade um novo hábito, íntimo encontro e dedicada paixão. E, por último, há aqueles que não vão mudar de forma alguma, não pensam em emagrecer, não querem praticar exercícios, adoram ficar até tarde no trabalho e por aí vai. E são felizes com seus corpos, com suas mentes e seus estilos de vida: não dão satisfações a ninguém e nem se incomodam com a opinião alheia.

E essa é a nossa realidade, o nosso charme: gordinhos, esportistas, nerds, magrelinhos, CDF’s, divertidos, workaholics, teimosos, perseverantes, chatos, preguiçosos, indecisos, dorminhocos. E por mais que queiramos mudar continuamos idênticos, com os mesmos ingredientes, os mesmos temperos, a mesma casca que o tempo se encarrega de aperfeiçoar ou arruinar. Pensamos exclusivamente em nós e no espelho e acabamos deixando de lado as pessoas que nos cercam, que nos amam de verdade e que nos querem assim: com nossos piores defeitos, com nossas vaidades inofensivas, com nossas manias esquisitas e nossas pequenas virtudes.

Exatamente como um dia nos conheceram. Exatamente como aprenderam a gostar de nós, a nos suportar e respeitar. Exatamente como éramos no ano passado. Do jeito que sempre fomos. Sem tirar nem pôr.

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