Fatos, Fotos e Memórias…

Colunista Ercília Pollice - Fragmentos do Cotidiano - erciliapollice@gmail.com

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Parece que memória e tempo presente se juntaram pra fazer nela uma associação de ideias e fatos.

Hoje é sábado! Um luminoso sábado de primavera. Tempinho meio frio, gostoso, céu muito azul, e uma leve brisa a arrepiar o corpo.

Ela acordou meio cedo hoje para um sábado. Tinha aula de conversação de Inglês. Tomou banho, com sabonete em creme de “mure sauvages”… coisa boa. Depois do banho, acentuou o cheiro massageando o corpo com “mure sauvage body lotion”… nossa é demais de bom. Tomou seu café, desta vez contando as calorias direitinho. Anda firme na dieta a que se propôs.

Vestiu calças compridas, estilo montaria, pegou suas botas pretas e baixas, e, lá foi caminhando pra aula de inglês.

Sentiu-se aluna outra vez, e, jovem. Coisa gostosa ter esse privilégio de poder falar e ser entendida em outra língua que não a sua. Enriquecedor!

Hoje alguns fatos fizeram-na retornar no tempo. A memória é mágica. Logo pela manhã abriu o Facebook e viu a foto que seu filho postou de sua netinha na Alsácia.

Imediatamente, veio-lhe à cabeça, sua mãe ensinando-lhe uma poesia imensa. Eram mais de 20 estrofes e contava uma história de um menino estudante que brigou com seu professor por amor à sua pátria – Alsácia- O Estudante Alsaciano, não querendo falar alemão em sua terra francesa, ocupada durante a 2ª. Guerra Mundial, entrou em atrito com o professor alemão.

Lembrou-se que ainda menina, aprendia tudo direitinho e declamava na escola, tinha de 8 para 9 anos e estava na 3ª série do primária, trancinhas amarradas com fita de tafetá xadrez. Era aplaudida e adorava. Deveria ter sido atriz.

Agora, sua netinha conhece e tira fotos na Alsace. Mundo, mundo vasto mundo… sem rima e sem solução não é Drumond?

pagina_papelDepois do almoço, deu a cochiladinha costumeira, mudou de roupa e 15h30m foi pegar a amiga que ia com ela à Academia de Letras onde ouviu uma palestra sobre Carlos Gomes, mas não sobre o conhecido músico das óperas famosas. Falou o palestrante, com um conhecimento profundo do renomado músico, de sua produção paralela: valsas lindas e modinhas.

Então, de novo o tempo brincou com ela. A famosa soprano Campineira Niza Tank que faz parte da mesma academia, canta a modinha “Tão Longe de mim, distante…. ”e, remete-a, novamente ao tempo de colégio quando cantava essa canção no coral que naquele tempo chamava-se orfeão.

Puxa vida, os estudantes cantavam Carlos Gomes no colégio. Hoje ninguém nem sabe quem é Carlos Gomes. Tanto é que no meio da palestra, o secretário da Cultura que veio representar o prefeito, pediu licença e saiu. Era cultura em demasia para um simples Secretário da Cultura. Só rindo mesmo…

Sentiu-se nostálgica. O ensino, dizem, era mais elitizado, mas era ensino pra valer. Ela e as irmãs estudaram e não eram ricas. Seu pai era assalariado como funcionário público; veterinário sanitarista, sua mãe era professora, mas nesse tempo nem lecionava mais.

Teve muitos amigos que estudaram, se fizeram na vida, são pessoas que galgaram cargos importantes e eram pobres. Agora a escola é aberta a todos, mas ninguém aprende nada… valeu a pena toda abertura sem lastro?

Ficou pensando se quantidade vale a pena ou a qualidade é que conta. Todo mundo entrando e saindo da escola sem saber nem ler um texto simples.

Bem, pra completar morreu hoje a artista querida de todo público brasileiro; Hebe Camargo… isto, levou-a novamente a um tempo onde sua mãe e suas irmãs ouviam no rádio, a moreninha de Taubaté, cantar com Ivon Cury. Sua mãe simpatizava de cara com a cantora, pelo fato dela ser do Vale do Paraíba, onde seus avós fizeram histórias com suas fazendas de escravos e as muitas coisa, que sua bisa contava à menininha, filha única, na infância. E ela curiosa como quê, fazia sua mãe repetir essas histórias vezes e vezes adorava ouvi-las.

Alumbramentos, relembranças, lembranças, ah! O tempo é o mágico de todos os mistérios, já disse, sabiamente, Guimarães Rosa.

Ela volta pra casa. Esquenta o jantar: peixe assado, com salada e pouco arroz com feijão, 250 calorias apenas. Ainda tem de quebra uma gelatina e uma fruta ou uma barrinha com chocolate. Creio que ela vai escolher a barrinha, as memórias deixaram-na carente hoje.

A Lua lá fora está lindíssima, cheia, gigante… convidativa!

Será que vamos mesmo ter o alinhamento dos planetas, pergunta-se, enquanto a Cristiana Lobo, na Globo News, fala sobre o mensalão, a política e o mau humor do Ministro Joaquim Barbosa.

Pensa que se houver alinhamento e acontecer alguma coisa, ela estará só, longe da família. Vai grudar em alguém! Sozinha não fica, nem há de ficar, escolheu… pra ser o seu par… põe aqui o seu pezinho, bem juntinho com o meu… e, depois, não vá dizer que você já me esqueceu.

E, lá vêm os pensamentos de novo… brincadeira de roda, cantigas de rua, infância, primos, irmãs… pronto, chega por hoje, para dentro, meninas, hora de dormir… Lá vem a mamãe falando e gesticulando com as mãos.

A vida passou muito depressa! Assim como o sábado!

Ercília Pollice
Ercília Ferraz de Arruda Pollice reside em Campinas, é formada em Letras pela USC – Bauru, bacharel em Literatura Portuguesa. Escritora, conta com 10 livros publicados, entre eles livros infantis e juvenis, além de inúmeras crônicas e poemas. Integra a Academia Campineira de Letras e Artes e Academia Bauruense de Letras. Foi indicada para o Prêmio Jabuti pela autoria do livro infanto–juvenil “Só, de vez em quando” da Editora FTD. Ercília também é artista plástica catalogada no Cat. Júlio Lousada. Aquarelista, já realizou dezenas de exposições individuais e coletivas em diversos salões e galerias, inclusive em Paris. Alegre, de bem com a vida, adora relacionar-se. Sua preferência é escrever sobre relacionamentos em todas as áreas e níveis. Também tem uma queda por comentar fatos políticos e suas implicações, sempre com bom humor e alguma ironia. Poeta, fala só do amor. Quando escreve faz pinturas de palavras, sua arma maior. Quando pinta faz poemas de cores. Tem 3 filhos, escreveu vários livros e já plantou centenas de árvores. Agora, é desfrutar os bons momentos que a vida sempre oferece àqueles que tem olhos e ouvidos para ouvir e entender estrelas.

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