A saudade se aninhou num cantinho

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Imagem: FsHH / Shutterstock

“Na minha vida uma saudade imensa vem chorar baixinho… no meu olhar um mundo de tristeza veio se aninhar…” (Nana, canta e recanta)

Essa canção só pode ter sido feita pra mim. Mas palavras de amor ou situações de amor, são assim mesmo. Servem para todos os apaixonados.

Quando o dia fica frio e nublado, não há como driblar as saudades.

A memória nos prega peça, e quando nos damos conta, as cenas vêm e vão como flash, e revivemos todos os detalhes, todos os suspiros, todos os gemidos, todos os ais.

E me volta de novo o último diálogo, nada diferente dos outros – “oi, como vai?” Bem, obrigada, e você?” Também estou bem… vamos falar um pouquinho, ou já está de saída?

“Não poderei te dar a atenção que gostaria, estou na empresa, e é um entra e sai da minha sala…” Ok. Bom trabalho, então. Perdeu a vontade de falar comigo?

“Não, quero que saiba que penso muito em você. Sinto muita saudade. E tenho muita vontade de te ver.”

Não vem por que?

“Tenho feito um esforço enorme pra resistir… mas não estou conseguindo… vou ter de te visitar”.

Por que não marcamos a semana que vem? “Por que não estará em sua casa esta semana?”

Minha netinha está comigo desde meu niver. Vai embora domingo. Vem almoçar comigo, faço sua comida predileta. “Minha comida predileta é você! Querida tenho de sair, depois falamos. Um beijo com carinho”.

Outro beijo pra você, me chame mais tarde.

“Tchau, querida!”

Faz 12 meses que isso se repete. Faz 12 meses, que ele não vem, e eu daqui do meu cantinho, feito um voyeur, percebo a angústia de ambos, e a saudade de ambos, e a vontade louca que ela tem de vê-lo de novo, aqui pertinho. Ela tem sonhado vezes demais com ele aqui abraçando-a, dizendo palavras de amor, beijando-a com aquele beijo que, diz ela; só ele sabe dar.

Ele dizer-lhe por skype ou telefone o quanto sente sua falta e o quanto pensa nela, e o quanto quer tê-la em seus braços outra vez.

Fico imaginando que o ser humano não foi feito para ser feliz. Não sabe aproveitar o momento que a vida lhe oferece, como uma dádiva “dos deuses”.

O ser humano é deveras engraçado, e aqui entre nós, não posso entender as razões de alguém que quer seguir uma regra que não está escrita nem tem firma reconhecida em cartório algum.

O amor precisa ser vivenciado sempre que possível. Disse que ela deveria esquecê-lo que seria melhor pra todos. Contudo nestes 12 meses, não pararam de pensar um no outro.

Nestes mais de oito anos que se conhecem, cada dia esse sentimento foi ficando mais forte, creio mesmo que já nasceu forte. Se fosse dado a esoterismo, diria que estava escrito nas estrelas.

Sempre foi um entendimento sem muitos questionamentos. Era uma confiança mútua no que sentiam, que não havia cenas de ciúmes, nem brigas, nem desconfianças. A palavra lhes bastava. Amor de palavrinhas. Amor inteiro, incontido, declarado, escancarado.

Ele a dizer-lhe que com ela se sentia ”em casa”, confortável, e que em suas fantasias de amor, só cabiam ela. Não havia sentido realizá-las com outra pessoa.

Ela a dizer-lhe, não me sinto a vontade com ninguém como me sinto com você. “Idem” respondeu ele, prontamente. Você é a única mulher que eu trato como a mulher amada e por quem tenho um tesão incontrolável”. Não foi bem assim que ele falou, mas vamos deixar desse jeito.

Ela sonhou uma noite dessas, que ele estava beijando-a, abraçando-a, e se tocavam e, ela podia sentir seu desejo todo pra ela e nela. Suas mãos a acariciar-lhe os seios, beijando-os, sugando-os até deixar marcas, ela em brasa pediu que a penetrasse.

Na hora do amor, quando ele a penetrou, alguém entrou no quarto, ele deixou-a sozinha e correu atrás da outra pessoa. Foi uma dor de perda, e uma sensação de vazio… acordou.

Acho que esta mulher inteira, apaixonada, com tanto amor pra dar, precisa urgentemente ser amada com inteireza por alguém que não tenha medo de amar.

Ele como bom cartesiano, quer tudo bem certinho, arrumadinho, empilhado e configurado pra dar exato, como uma equação.

Mas a vida não é assim.

A vida é intempestiva, nos rouba momentos, e nos dá outros de presente. A vida age de maneira aleatória, e nunca saberemos que resultado teremos.

É como a canção do Chico: você pode passar um tempão ”cultivando a mais linda roseira que há, mas, eis que, chega a roda viva e carrega a roseira pra lá…”

A gente não tem poder de mandar em nada, de escolher o fim de cada romance, ou o tempo de duração de uma grande paixão.

A gente é de aproveitar quando uma paixão acontece, e esquecer a palavrinha tempo.

Carpe Diem, já dizia o sábio romano. O que temos em mãos é o agora. O passado são cheques descontados e o futuro são notas promissórias, nem sei se chegarão a ser descontadas.

Mas, não adianta. Os privilegiados no amor são os corajosos. Só eles vencem e chegam do outro lado. E não chegam porque são privilegiados, não, são privilegiados porque chegam.

Isto me faz lembrar uma canção que esta mulher apaixonada adora. Uma canção de Michel Le Grand ”How do you keep the music playing, how do you make at least… How do you loose yourself on anyone, and never loose your ways…”

Traduzindo: ”como fazer a música continuar tocando e continuar até o fim… e como se perder em outro sem se perder de você mesmo?“

Ele, o moço lindo, ainda não viveu o suficiente pra saber disso. Não teve perdas, não teve muitas escolhas a fazer na vida, não tem coragem de viver o hoje e mandar o resto às favas, porque ainda não sabe, que se você não mandar o resto às favas, o resto fará isto por você. E, nos finalmente tudo tem um fim, quer seja de um jeito, ou de outro.

Ela é mais corajosa. Já perdeu tanto, já teve de fazer tantas escolhas, já teve de se recomeçar tantas vezes, que já não sente medo de nada. Enfrenta tudo como uma tigresa a defender sua cria. Ela é uma guerreira e tem consciência disso.

Sempre diz a quem quiser ouvir: melhor um coração sangrando do que um coração vazio. Coração machucado cicatriza, mas coração vazio, não tem jeito.

O viver nos ensina o valor de cada coisa. Para ela, mulher densa, intensa, apaixonada pela vida, ele é como um refúgio secreto. Adora repetir as palavras de Salomão em Cantares: “Eu sou do meu amado e o meu amado é meu”.

Eu, alma vivida e velha de guerra, só observo; vejo-a banhar-se, com esmero, se enfeitar feito noiva em dia de casamento… unguento de mirra e óleos perfumados… gazela à espreita do seu amado, que pode chegar sem avisar.

Cada expectativa indo embora no final da tarde…

É como diz o versinho que sua mãe ensinou-lhe na infância: “A felicidade no amor/ existe de quando em vez/ é como a quarta folhinha/ do trevo que só tem três!”

Pois é, meu lindinho, como ela diz: “você é meu doce mel, meu pedacinho do céu…”, e não é que a danada, aprendeu tocar violão só pra cantar seu amor em prosa e verso sem que ninguém ousasse desconfiar que tinha nome e endereço certos?

Dia desses, era seu aniversário, e entre os votos desejados ela fez um desejo dela. Escreveu pra ele, uma canção que Nana Caimi canta, canta e canta no CD de seu carro: “Onde você estiver, não se esqueça de mim… seja com quem estiver não se esqueça de mim… eu quero apenas estar em seu pensamento, e num momento pensar que você pensa em mim.”

Ela não percebeu, mas, o fato é que ao escrever estas palavras, ela já sabia em seu coração, que o único lugar que poderia ser dela, se aninhava no pensamento dele.

Lá ele podia ser romântico, sonhar, e viver com ousadia o que não soube viver na realidade.

Você, meu lindinho, queria dizer-lhe, ainda, se tivesse oportunidade, você quer tudo equacionado, certinho, empilhado, e trabalhado com logística e exatidão.

Mas a vida não é assim.

A vida é a arte do improviso. É a arte do desencontro, mas também é a arte do encontro, muitas vezes, como foi o nosso.

Poderia dizer-lhe que o mundo dá voltas, sabe que seria um lugar comum, mas nem este lugar comum, ela pode dizer, pois o mundo pra ela, já não dará tantas voltas assim.

O tempo é inexorável e a eternidade não inclui este amor onde corpos se unem num só. Onde as almas se alegram e o os corações ficam felizes e em paz. Ah! A paz que vem depois do amor.

Nada se equipara. É inigualável!

Um dia, talvez, quem sabe, ele saberá tudo isso.

Um dia, quem sabe ele compreenderá como foi tolo, medroso e ingênuo.

Ainda não sabe que um grande amor a gente nunca esquece. Nada substitui a pessoa amada, num coração que se deixou apaixonar. Não foi isso que ele lhe disse certa feita? Ela lhe perguntara assim à queima roupa: Eu já cantei em verso e prosa o lugar que você ocupa em minha vida, e eu, me diga, que sou eu para você?

Ele, sem hesitar: “Você é minha amada, antes de ser minha na cama. Ocupa meu coração quase inteiro, e é a única por quem eu tenho enorme tesão”

Uau, ela ficou sem fala. Uma coisa ele tem a seu favor: Nunca escondeu seus sentimentos. Sempre os declarou abertamente. Eles se amavam sem regras e sem limitações.

A vida é um conto ligeiro. É como a fumaça que o vento espalha, é como a relva que o sol dissipa. Ela espera que ainda haja alguma lucidez insana, às avessas, porque à maneira que ele quer e deseja não dá.

Não se pode comer o bolo e guardar o bolo. TUDO, só no Aurélio.

A vida é feita de escolhas. Ele escolheu à sua maneira, como entende ser o certo. Quem somos nós para julgá-lo?

Ela sabe conviver com as desilusões e tenho certeza, ele sofre mais que ela, porque o conheço bem, assim como conheço a ela.

Essa mulher ama o amor. Os homens passam e vão deixando marcas que com o tempo vão se tornando indeléveis, embora as lembranças sejam marcadas a ferro, neste coração sempre aberto para o amor.

Um dia ele lhe disse: “Querida, com 90 anos, você ainda vai ser sexy”. Foi uma palavra linda, de muita sensibilidade e delicadeza. Ele é repleto de delicadezas.

Por isso, ela sente uma dor funda a apertar-lhe o peito. Dói, mas dói gostoso.

Porque sabe, tem certeza de que onde ele estiver, ela estará em seu pensamento…

Ercília Pollice
Ercília Ferraz de Arruda Pollice reside em Campinas, é formada em Letras pela USC – Bauru, bacharel em Literatura Portuguesa. Escritora, conta com 10 livros publicados, entre eles livros infantis e juvenis, além de inúmeras crônicas e poemas. Integra a Academia Campineira de Letras e Artes e Academia Bauruense de Letras. Foi indicada para o Prêmio Jabuti pela autoria do livro infanto–juvenil “Só, de vez em quando” da Editora FTD. Ercília também é artista plástica catalogada no Cat. Júlio Lousada. Aquarelista, já realizou dezenas de exposições individuais e coletivas em diversos salões e galerias, inclusive em Paris. Alegre, de bem com a vida, adora relacionar-se. Sua preferência é escrever sobre relacionamentos em todas as áreas e níveis. Também tem uma queda por comentar fatos políticos e suas implicações, sempre com bom humor e alguma ironia. Poeta, fala só do amor. Quando escreve faz pinturas de palavras, sua arma maior. Quando pinta faz poemas de cores. Tem 3 filhos, escreveu vários livros e já plantou centenas de árvores. Agora, é desfrutar os bons momentos que a vida sempre oferece àqueles que tem olhos e ouvidos para ouvir e entender estrelas.

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