Bela, recatada e do lar

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Imagem: marvorel / shutterstock

Estou há 10 dias em casa, sem trabalhar. A crise me pegou também, mores, virei estatística, mas vamos dizer que agora eu sou freelancer, que é mais ameno do que dizer desempregado – mandem jobs (e nudes também).

Problemas linguísticos à parte, o fato é que eu tenho cada vez mais tempo livre disponível e passei a fazer coisas que antes não fazia. Cozinhar, por exemplo.

Já falei uma vez aqui sobre a minha frustração de ser um zero à esquerda na cozinha, acontece que agora a ocasião fez o ladrão e eu tive que aprender à força a me virar. Vivo, por assim dizer, meu momento “bela, recatada e do lar”.

Aqui em casa, minha mãe e minhas tias têm a mania de comprar as coisas e deixar tudo guardado: louças, copos, talheres e até panos de prato ficam intactos nos armários, esperando a volta de Jesus, e enquanto isso vamos usando os velhos mesmo porque não somos bíblicos. No meu debute na cozinha, estou usando os panos de prato novinhos da minha mãe. Paciência, a vida precisa de empurrões e eu uso a desculpa do “não sabia” para estrear as peças. Minha mãe e minhas tias, por razões óbvias, ficam putíssimas da vidíssima.

Voltando ao fogão: hoje, por exemplo, eu fiz um omelete com queijo, bacon, tomate cereja, leite, uma pitada de sal do Himalaia e orégano, uma receita que eu mesmo criei mas que já devia ter sido criada antes e eu apenas desconhecia pois não cozinhava.

A fase 1 foi linda

Omelete estufadinho, cheiro do orégano exalando no ambiente, as bordas já começavam a se formar nas extremidades da frigideira, pensei na foto que eu tiraria, na legenda que postaria, nos likes que ganharia.

A fase 2 foi de decepções

Fui traído pela precipitação do ego: virei o omelete, e a desgraça se fez, tudo desmantelado, horroroso, os tomate fora do lugar, um pulou pra fora do fogão, o queijo grudou na chapa, um pesadelo só!

Ao menos estava gostoso, portanto não desperdiçarei as legendas que eu usaria nas fotos: #ChupaNamaria #ChoraPalmirinha.

Raphael Scire
Raphael Scire gosta de teledramaturgia, dramaturgia, e na verdade, gosta mesmo é de um bom drama. Jornalista, autor do livro Crimes no horário nobre – um passeio pela obra de Silvio de Abreu (Giostri, 2013), é também dramaturgo e, em 2012 teve sua peça Sucesso com C, sobre o universo de uma família pertencente à nova classe C brasileira, selecionada pelo concurso Dramaturgias Urgentes, promovido pelo Centro Cultural Banco do Brasil. Em 2014, participou da equipe de roteiro do programa Tudo pela Audiência (Multishow). Foi colaborador de roteiro no documentário Lutando Para Vencer (2016) e escreveu o roteiro do documentário Laerte-se, ainda inédito, sobre a cartunista Laerte Coutinho. Também escreve críticas de novelas para o site Notícias da TV, parceiro do UOL.

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