Relações Tóxicas – Que amor é esse?

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Imagem: Engin_Akyurt / Shutterstock

É possível que você esteja vivendo uma relação abusiva ou já tenha escutado que alguém próximo está enredado em um relacionamento tóxico. Muito se tem falado a respeito desse assunto nas mídias. Parece ser mais comum notar-se essa forma de vínculo entre os casais. Entretanto é importante ressaltar que um relacionamento abusivo pode ocorrer em qualquer tipo de relação humana e não necessariamente entre namorados ou cônjuges, mas também entre pais e filhos, irmãos, amigos, colegas de trabalho, entre outros.

Chamamos de relação tóxica “a forma assimétrica de se relacionar entre duas pessoas”, onde uma delas sofre intensamente com o modo de ser da outra e em nada se modifica a esse respeito. A pessoa sente-se aprisionada e emocionalmente dependente; tornando-se refém de um vínculo empobrecido, pouco criativo, pautado no sofrimento, no desrespeito e na falta de confiança e empatia. É uma trama de difícil digestão mental, com esgotamento de energia emocional que potencializa a fragilidade de uma das partes, devido ao alto grau de conteúdo inconsciente existente na dupla. Nesse cenário, a relação não progride e a possibilidade de gratificação com trocas mais ricas fica abalada.

Um dos envolvidos ativa no outro, pontos específicos. Em psicanálise, podemos pensar se tratar de uma dinâmica destrutiva em que a doença de um necessita ou completa a doença do outro: de um lado, há alguém incapaz de sentir os sentimentos e as emoções, isto é, incapacitado de sentir compaixão, remorso ou culpa. Do outro lado, está alguém empático, preocupado, doador e que carrega em si culpa inconsciente, senso de obrigação e responsabilidade para com os outros e com a vida. Mas seu lado frágil, inconsciente, à espera de reasseguramento está mais agudo. Há uma espécie de relação adicta entre o par tal qual há na de usuários de substância psicoativa.

Trata-se de uma trama complexa encenada por uma dupla onde quem se sente ameaçado não consegue enxergar suas qualidades e potenciais e fica à espera de que o outro o perceba, o que não ocorre. As cobranças emocionais são acionadas e vira um círculo vicioso altamente destrutivo e difícil de sair. Exemplificando, é possível pensar numa relação sadomasoquista onde os papéis podem se alternar; o masoquista, que tem prazer em sofrer, busca o estado de humilhação e o sádico, com prazer em torturar e fazer sofrer, se apresenta.

Não é simples conseguir sair de uma relação tóxica, principalmente se existe vínculo econômico que acaba se misturando à dependência emocional. Nesse caso observa-se que as dificuldades mais comuns seriam:

  • Econômicas: quando o parceiro (a) não é autônomo e independente;
  • Emocionais e afetivas: relacionadas à dependência emocional – o medo de se sentir desamparado, medo das reações do parceiro, temor de ficar sozinho e crença de que não conseguirá refazer sua vida amorosa. E, como existe um ciclo de calmaria na relação, a pessoa tende a acreditar que o parceiro (a) irá se modificar, ou que ela (e) será capaz de fazê-lo (a) mudar. Há um receio de se deparar com o desconhecido que pode significar o seu autodesconhecimento, isto é, o próprio não saber sobre si mesmo;
  • Sociais: a relação abusiva tem por característica o isolamento do casal do seu meio social, afastando-se de amigos e familiares.
  • Questões jurídicas: existe um nó emocional inconsciente na relação abusiva que cega a vítima que não busca ajuda ou desconhece as questões legais.

As pessoas envolvidas nesse tipo de relacionamento devem buscar apoio de seu círculo social e familiar bem como ajuda psicológica, pois apresentam tendência a experimentar em suas vidas uma dose excessiva de sofrimento que as impossibilita de trocas afetivas mais ricas e verdadeiras e isso está longe de ser o que se procura, que é o amor.


Renata Bento – Psicóloga, especialista em criança, adulto, adolescente e famÍlia. Psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. Perita em Vara de Família e assistente técnica em processos judiciais. Filiada a IPA – Internacional Psychoanalytical Association, a FEPAL – Federación Psicoanalítica de América Latina e a FEBRAPSI – Federação Brasileira de Psicanálise.

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